nariz[1]

Era um dentista, respeitadíssimo. Com seus quarenta e poucos anos, uma filha quase na faculdade. Um homem sério, sóbrio, sem opiniões surpreendentes mas uma sólida reputação como profissional e cidadão. Um dia, apareceu em casa com um nariz postiço. Passado o susto, a mulher e a filha sorriram com fingida tolerância. Era um daqueles narizes de borracha com óculos de aros pretos, sobrancelhas e bigodes que fazem a pessoa ficar parecida com o Groucho Marx. Mas o nosso dentista não estava imitando o Groucho Marx. Sentou-se à mesa do almoço – sempre almoçava em casa – com a retidão costumeira, quieto e algo distraído. Mas com um nariz postiço.

- O que é isso? – perguntou a mulher depois da salada, sorrindo menos.
- Isto o quê?
- Ah. Vi numa vitrina, entrei e comprei.
- Logo você, papai…

Depois do almoço, ele foi recostar-se no sofá da sala, como fazia todos os dias. A mulher impacientou-se.

- Tire esse negócio.
- Por quê?
- Brincadeira tem hora.
- Mas isto não é brincadeira.

Sesteou com o nariz de borracha para o alto. Depois de meia hora, levantou-se e dirigiu-se para a porta. A mulher o interpelou.

- Aonde é que você vai?
- Como, aonde é que eu vou? Vou voltar para o consultório.
- Mas com esse nariz?
- Eu não compreendo você – disse ele, olhando-a com censura através dos aros sem lentes – Se fosse uma gravata nova você não diria nada. Só porque é um nariz…
- Pense nos vizinhos. Pense nos clientes.

Os clientes, realmente, não compreenderam o nariz de borracha. Deram risadas (“Logo o senhor, doutor.”), fizeram perguntas, mas terminaram a consulta intrigados e saíram do consultório com dúvidas.

- Ele enlouqueceu?
- Não sei – respondia a recepcionista, que trabalhava com ele há 15 anos. – Nunca vi ele assim.

Naquela noite ele tomou seu chuveiro, como fazia sempre antes de dormir. Depois vestiu o pijama e o nariz postiço e foi se deitar.

- Você vai usar esse nariz na cama? – perguntou a mulher.
- Vou. Aliás, não vou mais tirar esse nariz.
- Mas, por quê?
- Por que não?

Dormiu logo. A mulher passou a metade da noite olhando para o nariz de borracha. De madrugada começou a chorar baixinho. Ele enlouquecera. Era isto. Tudo estava acabado. Uma carreira brilhante, uma reputação, um nome, uma família perfeita, tudo trocado por um nariz postiço.

- Papai…
- Sim, minha filha.
- Podemos conversar?
- Claro que podemos.
- É sobre esse seu nariz…
- O meu nariz, outra vez? Mas vocês só pensam nisso?
- Papai, como é que nós não vamos pensar? De uma hora para outra um homem como você resolve andar de nariz postiço e não quer que ninguém note?
- O nariz é meu e vou continuar a usar.
- Mas, por que, papai? Você não se dá conta que se transformou no palhaço do prédio? Eu não posso mais encarar os vizinhos, de vergonha. A mamãe não tem mais vida social.
- Não tem porque não quer…
- Como é que ela vai sair na rua com um homem de nariz postiço?
- Mas não sou “um homem”. Sou eu. O marido dela. O seu pai. Continuo o mesmo homem. Um nariz de borracha não faz nenhuma diferença.
- Se não faz nenhuma diferença, então por que usar?
- Se não faz diferença, por que não usar?
- Mas, mas…
- Minha filha…
- Chega! Não quero mais conversar. Você não é mais o meu pai!

A mulher e a filha saíram de casa. Ele perdeu todos os clientes. A recepcionista, que trabalhava com ele há 15 anos, pediu demissão. Não sabia o que esperar de um homem que usava nariz postiço. Evitava aproximar-se dele. Mandou o pedido de demissão pelo correio. Os amigos mais chegados, numa última tentativa de salvar sua reputação, o convenceram a consultar um psiquiatra.

- Você vai concordar – disse o psiquiatra, depois de concluir que não havia nada de errado com ele – que seu comportamento é um pouco estranho…
- Estranho é o comportamento dos outros! – disse ele.
- Eu continuo o mesmo. Noventa e dois por cento do meu corpo continua o que era antes. Não mudei a maneira de vestir, nem de pensar, nem de me comportar. Continuo sendo um ótimo dentista, um bom marido, bom pai, contribuinte, sócio do Fluminense, tudo como antes. Mas as pessoas repudiam todo o resto por causa deste nariz. Um simples nariz de borracha. Quer dizer que eu não sou eu, eu sou o meu nariz?
- É… – disse o psiquiatra. – Talvez você tenha razão…

O que é que você acha, leitor? Ele tem razão? Seja como for, não se entregou. Continua a usar o nariz postiço. Porque agora não é mais uma questão de nariz. Agora é uma questão de princípios.

Luís Fernando Veríssimo.

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Referências Bibliográficas

BOCK, Ana M. Bahia; FURTADO, Odair; Teixeira, Maria de Lourdes T. Cap. 21. Saúde ou Doença Mental: A Questão da Normalidade. Psicologias. Uma Introdução ao Estudo da Psicologia.Pág. 306 a 309, 9ª edição, Editora Saraiva, São Paulo, 1996.

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Por Henrique Guedes

Efeito Global. Destruição da terra. Término da vida. Era do pecado. Estas são algumas características dadas à tecnologia. ONGs e “voluntários” apontam a tecnologia como o grande problema do mundo, causa provável do repentino término da existência. Pode ser verdade, a tecnologia do nosso tempo pode de fato destruir o mundo. A solução apresentada: a destruição da tecnologia. Solução trágica, ruim. Colocaria a humanidade em xeque. Seria um golpe certeiro, para matar mesmo.

Mas não devemos usar a palavra “tecnologia” assim, para tudo. Trata-se de algo complexo e importante. Tecnologia é qualquer ferramenta ou descoberta útil para a evolução. Diria até que a tecnologia é uma marca evolutiva.

O Homo Habilis com suas ferramentas de ossos, madeira e pedra lascada fez tecnologia. O Homo Ergaster quando criou seu machado de pedra biface permitiu a tecnologia em sua vida. É certo que a extinção começou aí; inúmeros animais mortos a machadadas. Isso garantiu a sobrevivência, portanto o machado foi uma grande tecnologia. Nenhuma ONG pré-história foi criada para proibir seu uso. Muitos anos mais tarde o Homo Ergaster, até então africano mudou-se para o Oriente transformando-se no Homo Erectus. Sua tecnologia? O Bambu. Outro material natural que permitiu a sobrevivência. Tecnologia natureba.

Agora outra grande tecnologia: o fogo. Essa foi muito importante. Não se sabe quando o fogo foi produzido e utilizado pela primeira vez, mas de certo tornou a vida dos hominídeos melhor. A noite não oferecia tantos perigos como antes. A Alimentação mudou. Sei status natural também: o hominídeo reinou na terra com o fogo. O homem dominou o mundo. Sem dúvida o fogo é o marco da evolução.

Bem, pulemos muitos anos agora: próxima parada o ano de 2010. Uma coisa que distingue o animal homem dos outros animais é o uso de ferramentas. O homem operacionaliza os meios em seu redor para sua comunicação com os outros ou consigo, deixa marca e sinais, como por exemplo, um bilhete na geladeira com o número de uma pizzaria.

No nosso século a tecnologia da vez é a tecnologia industrial. Computadores: o fogo do Homo Sapiens. Como o fogo para os nossos ancestrais, o computador permitiu o homem fazer coisas antes imagináveis, ninguém vive sem um computador; todos têm um por perto ou já ouviu alguém falar sobre. Àqueles que nunca chegaram perto de um, logo chegarão. Diria que o machado é o mais antigo percursor do computador.

Será mesmo necessário abrirmos mão da nossa marca evolutiva? Se é necessário uma mudança, ótimo. Agora, destruir uma marca sem razão é retroceder a evolução, assim como o Homo Erectus quando voltou para a África, terra do Homo Ergaster. Podemos utilizar a tecnologia industrial (não apenas computadores, claro) para salvar nosso mundo. O uso pode ser controlado, a massa tem o poder. A ganância do homem coloca uma máscara assustadora na face da tecnologia, e isso tem sido um grande problema. Não quero o Prêmio da Paz, portanto não apontarei soluções improváveis de salvação, por outro lado acho injusto as ONGs atacarem a nossa tecnologia industrial – não é qualquer tecnologia – com tanta raiva. A tecnologia sempre foi marca de evolução, porém sempre natural. A Industrialização e o poder do capitalismo são o problema. Projetos de aparelhos “amigos do planeta” não são disponíveis para a população. No fim ninguém deseja salvar o mundo de fato, não com o poder dos numerários na ativa. Acredito ser possível manter nossa marca evolutiva e salvar a existência ao mesmo tempo. Se a humanidade parar para usar seus neurônios atômicos em busca de ajuda, teremos algum futuro.

Por Henrique Guedes