consumismo[1]

O rápido desenvolvimento dos recursos tecnológicos ocorrido na civilização ocidental no decorrer dos últimos séculos, criou um dos principais problemas sociais: o consumismo.
Iludidos pelas propagandas comerciais financiadas pelos grandes aparatos de venda de bens de consumo, o indivíduo é estimulado a cada vez mais adquirir produtos, tendo em vista a satisfação pessoal, esta qual prometida pelas sedutoras e mentirosas propagandas: na compra de um determinado carro, o comprador não ganhará um chaveiro ou uma caneta da loja, mas sim uma fonte de belas mulheres; o consumo de um determinado cigarro não causará um câncer de pulmão ou de garganta, pelo contrário, ele servirá como um “melhorador” pessoal, ou seja, o consumo do tal cigarro proporcionará ao usuário ser uma pessoa mais dinâmica e bem-sucedida, cercada de bons amigos.
Levando em consideração que todo problema tem algo que proporcione o seu desenvolvimento, podemos destacar como braço direito do consumismo a voz mediática, que propaga, junto à imagem do produto a ser adquirido, a imagem de pessoas que por algum motivo são pessoas destacadas na sociedade, estas como usuárias fiéis dos produtos, o que serve como impulso para a sociedade alucinada adquirir cada vez mais – a imagem é hipnótica, a voz mediática sedutora.

Tal procedimento exerce um grande efeito sobre a grande massa de consumismo1[1]consumidores, que desejam adquirir produtos que têm um significado representativo de atributos que tornam aquele que consome uma pessoa melhor, quando na verdade a maioria dos produtos não têm nenhuma importância.
Algumas pesquisas apontam que, na dimensão da moral do consumo, é necessário que o indivíduo se sinta parecido com as celebridades, seja nos gestos, nas atitudes e no próprio corpo – um risco para grande parte dos jovens, que não se preocupam com a seriedade e procuram, cada vez mais, seguir a moda.
Esse jogo de manipulação de idéias, de imagens e de fraquezas humanas, ressoa de forma muito precisa na nossa sociedade altamente tecnologizada, sociedade qual se manifesta cada vez mais a perspectiva de que o bem-estar pessoal pode ser encontrado no sujo mundo do consumismo.

O capitalismo, pai de todos os problemas mundiais, lucra com o quadro lamentável da sociedade, e o pior: ganha uma boa imagem, à cerca do consumismo – para se obter bens materiais que, supostamente, são fontes de bem-estar, é necessário que a pessoa trabalhe e produza
continuamente, tendo em vista a realização do desejo, ou seja, a compra de uma gama de objetos inúteis, nos quais o indivíduo projeta a sua felicidade imediata.

Nietzsche, o grande Nietzsche, em sua investigação genealógica da decadência da cultura ocidental, afirma que todo estado de declínio efetivo, cultural e fisiológico, leva a uma necessidade de conquista de estímulos cada vez mais fortes e freqüentes, uma forma de entorpecimento individual diante do mal-estar pela existência (Crepúsculo dos ídolos, “Os quatro grande erros”).

O citado processo de enfraquecimento da capacidade crítica natural do ser humano ocorre até mesmo na criação artística atual, pois quase todas as obras são direcionadas para o consumo de uma classe supostamente apreciadora, rica de refinamento, qualidade que, se a existência fosse indicada, tornaria essa classe plenamente apta a fluir de uma determinada obra de arte de maneira epifânica.
Tudo é consumismo, até a cultura virou consumismo. Os livros mostram que o consumismo assumiu o intelecto de muitos. É a moda. Comprar livros hoje em dia não quer dizer que existirá uma leitura – é o prazer em comprar (ou você acha mesmo que alguém compra um livro do Paulo Coelho porque gosta?), de possuir. O mais importante não é obter o que se deseja, mas sim a busca pelo objeto desejado.

O gosto moderno pela “novidade” produzida pela organizada estrutura de consumo social decorre de uma necessidade mental coletiva, direcionada para a recepção das atualidades prometidas pelos instrumentos produtores de serviços, estes descartáveis. Nesta busca pelo novo, ocorre uma perigosa distorsão no juízo avaliador natural dos critérios de apreciação dos bens de consumos. O consumismo – ou a face original, o capitalismo – além de enganar toda uma sociedade, acabar com os recursos naturais do planeta, causar a poluição do mesmo, oferecendo terror aos ecologistas e a sociedade futura, ele ainda domina mentes de uma forma violenta, originando cegueira, burrice e em alguns casos, morte existencial.
Dizem por aí que “nem sempre aquilo que é novo é necessário e de boa qualidade”. Existe uma verdade nisso, quando pensamos no consumismo.

Por que não cultivar o íntimo através do estudo, da boa música (nem pense em axé ou pagode), da leitura (nada de Paulo Coelho), da educação? Sejamos pessoas no sentido pleno da palavra, os valores intituídos merecem o lixo. Sejamos mais fortes que o tirano. Liberte-se do capitalismo.

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Referências:

[BITTENCOURT, Renato Nunes. A insanidade da moda e a cultura do consumismo. Filosofia ciência e vida, São Paulo, ano II, n° 19, pág. 22 até 29, 2008]

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Para ler mais, acesse: Além da Curva
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Por Henrique Guedes

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