Sonhar. Amar à distância, mas pertinho. Ou seria ao contrário?
Para falarmos de amor platônico, antes precisamos saber o que é o amor platônico. Platão, a resposta está nele. Ou melhor, surge nele. Quando ele pensou no mundo das idéias e no mundo das sensações, ele pensou na definição de cada um com uma…clareza específica tão grandiosa que chega a doer o fígado. Vivemos com nossas percepções, vivemos com nossas sensações, com nossos estímulos. Vivemos. Este é o mundo das sensações. Tudo o que é realmente bom, perfeito, fantástico, fica armazenado nas gavetas do mundo das idéias. Bem, aqui já fica clara a denominação “amor platônico”, assim creio.
O amor platônico – e sua base – sempre foi um problema. Não há cura. Com o tempo piora. O reforçamento deste amor com a pessoa desejada, a cada dia, a cada momento, fisicamente ou mentalmente, é perturbador. Uma vontade de olhar nos olhos, uma vontade de sentir a pele, os lábios, a respiração. Vontades proibidas. Venenosas. Você não tem coragem de falar. Sua cara feia dá medo. Você aprende tudo sobre a pessoa, mas ela nada sabe de você. Você sabe quando ela está triste, mas ela não. Você cuida como se fosse algo totalmente frágil. Sua fama é de idiota.
Passar todo dia as mesmas sensações perturbadoras, os mesmos momentos, as mesmas vontades, as mesmas raivas, o mesmo carinho jogado ao vento; transformar suas fantasias e idealizações em lâmina e cortar a artéria aorta. Todos os dias. Aiônios Erôs.
Passar noites acordado porque certa imagem serve de papel de parede da mente. Às vezes até uma voz sussurra para o seu sono: “Suma!”. Sentir uma ansiedade profunda até finalmente dormir. Acordar poucas horas depois alegre, alegre com um sonho. Foi um sonho. Passar o novo dia magoado, triste, acabado. A sensação de impotência te priva de motivação. Novamente os momentos de um amor imaginário chegam. É hora de passar tudo novamente. É medonho. Dói.
Aí você pensa: “chega, acabarei com isso!”. Mas não funciona. Não existe fármaco que congele os pensamentos. Você aprende que é tudo ilusão. Você aprende a viver com essa ilusão, quieto, calado. O sofrimento é privado. Mas uma hora o acúmulo de ilusão machuca, aí você bate a testa na parede. Não tem ninguém perto. A solidão chega. Ela torna-se sua amiga. Vira sua companhia.

É certo denominar isso de amor platônico? Não seria melhor algo como…fraqueza humana? É isso que somos: fracos. Todos nós. Aí você percebe isso mas continua sofrendo, por pura burrice. É isso que somos: burros. Percebemos isso mas levamos normalmente, naturalmente. É isso que somos: humanos. Aí você pensa, pensa e pensa. A hora de se debater na cama com suas tristezas novamente chegou. Bom sofrimento para você também.

Por Henrique Guedes

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