Paremos alguns minutos para pensar sobre a possibilidade de definirmos a beleza e a feiúra. Tal possibilidade existe? Parece ser totalmente relativo. Uma indagação complexa.
A beleza é querida e desejada por todos, é tratada com tanto carinho que chega a embrulhar o estômago. A feiúra por sua vez não é querida, é questionada e apedrejada em praça pública. É a ovelha negra da existência. Epa! Não queremos aqui definir a beleza, queremos?

O conceito de “beleza” e “feiúra” está em tudo. É tão complexo que chega ser difícil falar sem apresentar uma definição. Esse conceito está na arte, na natureza, nos pensamentos, nos atos, na escrita, na música e, principalmente, no cartão de visita humano: o rosto.
Está na arte quando observamos um quadro repleto de cores chamativas com formas abstratas – ele pode ser “belo” ou “feio”. Está na natureza quando se define uma hiena feia e uma flor bonita. Está nos pensamentos – estranho – quando alguém julga determinado pensamento como um pensamento “feio”. Está nos atos quando os pensamentos “ganham” movimento. Está na escrita quando a professora infantil manda seu aluno treinar a escrita em casa ou quando um universitário não segue os “padrões de beleza” da ABNT. Está na música quando julgamos um som feio ou bonito (é, a humanidade faz cada coisa), e está no nosso rosto porque esse é o principal motivo para alguém pensar no belo ou no feio, mesmo sendo uma questão…podre.
Peguemos a “beleza” humana como ponto de partida. Somos obrigados a querer a beleza. Quando uma criança nasce ela nasce com cara de joelho, mas a sociedade proíbe a mãe de achar seu filho feio. Ele é bonito, mesmo com cara de joelho. Na nossa formação o feio e o belo são tão comuns como as palmadas no traseiro. É “bonito” aqui, é “feio” acolá – é tão comum que lembra o certo e o errado ensinados pelos nossos pais quando somos pequenos. Está bem, todos temos o mesmo conceito de belo e feio, não sejamos hipócritas, mas isso merece a importância que tem na sociedade? É relativo, caro leitor.

Vejamos nas estórias para crianças: temos a estória da Bela e a Fera. A Bela é uma linda mulher que se apaixona por um sujeito peludo e bruto considerado feio pela população; podemos ver a mulher como uma sábia, pois deixou a aparência do seu amado de lado e voltou-se para seu interior. Mas você não acredita nisso, não é mesmo? Oras bolas! O pobre peludo é julgado feio de qualquer forma. Não se trata de uma estória para dar lição de moral, trata-se de uma estória hipócrita. Veja o título “A Bela e a Fera”: o personagem não é feroz, então não é uma fera o título surgiu para camuflar o real, que deve ser “A Bela e o Feio”. Isso é ridículo.
Mas não pára aí: ainda temos a estória do sapo e a princesa – estória cujo nome convidou minha memória para tomar uma breja no Bar do Zé – onde a princesa beija um sapo no qual se transforma em um príncipe. Sempre fiquei pensando: por que não o contrário? Não é uma questão do humano versus o animal, novamente é a questão da aparência: a mulher é bonita, o membro da família Bufonidae é estranho, esquisito anatomicamente, logo feio. Estes dias estava passando canal por canal no intervalo do The Big Bang Theory quando minha atenção voltou-se para um comercial em especial: o novo desenho que conta a estória do sapo e da princesa, mas da forma que sempre pensei querer ver – o sapo continua sapo e a princesa deixa de ser humana. Interessante. Quero vê-lo para matar minha curiosidade existencial. Será que a hipocrisia morreu ou apenas sofreu uma metamorfose televisiva? Parece que não, mas os desenhos têm uma carga filosófica grande e fascinante, assim como as estórias “de criança”.

A beleza e a feiúra são conceitos básicos de qualquer sociedade; a beleza sempre ganha. Na mitologia grega até deusa para a beleza tinha – Afrodite, ou Vênus para os Romanos – que não gostava de ser questionada. Existia até castigo. E um deus ou deusa para a feiúra, cadê? Se existe desconheço. O conceito de beleza e feiúra parece com o conceito de Deus e o Diabo: um é bom e o outro é ruim, isso porque alguém assim determinou e todos seguiram. Quanto conceito!

Um nietzscheano não pode falar do assunto em questão sem falar de seu mentor. Nietzsche concebe a beleza como um jogo de espelhos; nada é tão relativo e limitado como o nosso sentimento pelo belo. Nada é belo. O belo só existe quando o humano embrulha algo com sua beleza e com seus sentimentos. Nada é feio. O feio só existe pelo mesmo motivo.
Assim, podemos entender a concepção do belo e do feio da nossa sociedade. Nela um grupo embrulha e joga seus sentimentos em algo e determina que as pessoas próximas compartilhem da mesma concepção. Essa concepção passa entre a família e os amigos, assim como para a próxima geração. Os pais e avós ensinam a criança em formação idolatrar o belo e questionar o feio, mesmo não sabendo o que é cada um – para complementar o processo de “ensinamento”, estórias são contadas.

Chegamos a um ponto que a beleza é o necessário. Você pode ser um cara inteligente, responsável, cavalheiro, mas se tem algum problema de pele ou algo que venha a ser considerado feio você já era, você sempre perderá para um cabeça de bagre qualquer. Essa é a nova lei. Talvez tudo isso seja uma dor de cotovelo, assim como talvez seja uma reflexão. É relativo. Chegamos a um ponto que a música erudita tornou-se feia e o funk carioca bonito. Você é julgado até pela sua vestimenta. Bazzinga!
O conceito de beleza e feiúra física tornou-se um grande problema. De todas as feiúras e belezocas, ela é a mais forte, mesmo não merecendo o cargo. Não importa mais o que é o belo ou o feio, se existem de fato ou não – a prepotência humana apropriou-se de todos os conceitos à cerca do assunto e mudou a sociedade. Posso ficar falando horas sobre o belo e o feio, mas sempre acabarei aqui, no conceito do belo e do feio físico. Bom para a arte. Bom para os miolos moles. E você, caro leitor, o que me diz sobre o belo e o feio?

Por Henrique Guedes

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