Vida bêbada. Essa é a nossa vida. Estamos sempre bêbados. Nascemos tão bêbados ao ponto de não saber onde estamos. Crescemos bêbados. Chegando na fase adulta nosso sistema está tão podre que tem o funcionamento semelhante a uma Brasilia 73. Pura overdose.

Ficamos bêbados nas reuniões de família, nas madrugadas solitárias e até nas aulas de psicanálise. Freud, grande bêbado.
Ficamos bêbados enquanto vivemos, enquanto pensamos, enquanto sonhamos. Ficamos tão bêbados nos sonhos que acordamos de ressaca.

E não me venha com sermões, oras bolas! Você também é um bêbado. Não digo um bêbado como aqueles nos botecos, estes que brindam suas tristezas, mágoas, angústias e lamentações em copos americanos de cachaça e derivados. Pode ser, mas não é só isso.

A vida é uma grande cachaçaria. Cachaçaria das boas, tão boa que reserva aquela costela cheia de gordura para você. Tão boa que só cobra a dívida da bebedeira na verdadeira saideira.

Se você é depressivo não se preocupe. Cá está a solução: continue bêbado, assim você estará bêbado até o término da bebedeira. Beba o vinho dos pensamentos, ou aquele tal de Fernando Pessoa, ou até mesmo o bom Drummond. Mas se você quer queimar o fígado prá valer beba o Nietzsche, mas vá com calma, ele é bem forte.

Beba os livros, as músicas e as cachaças, por que não?
Já dizia Baudelaire: “Embriague-se, de vinho, virtude ou poesia”. Chame os amigos para ficarem sempre bêbados. Uma dose de amizade no domingão faz bem à saúde, já disse os jalecos brancos.

São apenas recomendações, pois no final das contas você estará sempre bêbado. É natural. Já disse o saudoso Xico Sá: “paremos nosso jegue metafísico por aqui”. Não há para onde correr. A bebedeira é o único fato que o Homo Sapiens Bebuns não pode controlar. É possível ficar bêbado até com ignorância, veja só. Mas parece que esse é corrosivo, faz mal. A cachaçaria existencial tirou esse até do menu, só por encomenda mesmo.

Falar em bebedeira é apenas inovar, pois já estamos sempre bêbados. Fora as doses comuns podemos degustar as loiras, as escuras, e com sorte até ruivas e asiáticas, está última parte de uma cultura famosa por sua maneira excêntrica de brindar a bebedeira. O legal é inovar mesmo.

Agora não beba, não muito, a realidade. Ela é pior que a famosa Fada Verde. Faz qualquer um ver o Bicho-Papão e chorar. Tá certo que você chora ao beber pequenas doses de desgosto, solidão, tristeza, e incertezas, mas igual à realidade, meu amigo, não existe.

Bem, preciso beber um pouco agora. Deitarei o corpo cansado na cama, colocarei o crânio no travesseiro pronto para adormecer, sem medo, pois a Cachaçaria Existencial, não importa o que sirva, sempre dá, por conta da casa, o drink do esquecimento. Hora de ir, porque amanhã é dia de ressaca.

Por Henrique Guedes

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