Copa, maior evento esportivo do mundo, veja só. Não é o maior evento do mundo porque acolhe todas as bandeiras simbológicas, e sim porque tem como base o esporte escolhido para ser o maior, ou seja, caro leitor, o chuta objetos inanimados chamado futebol. É a zina do chuta-chuta, é a zina da ideologia.

Mas não é o maior evento do mundo porque tem como base o futebol. Não, não mesmo. Trata-se do maior do mundo, também, porque deixa claro toda uma ideologia comprada. É um evento de ideologias. Se ainda vivo, Karl Marx usaria a copa do mundo como exemplo para sua dialética, para seu materialismo histórico. Barbudo Marx.

A copa não é mais um evento esportivo, virou carnaval. Aliás, o que no nosso belo país não vira carnaval, não é mesmo? Bem, a copa virou motivo de comemoração avacalhada, meu amigo. Parece Natal, Ano Novo, São João ou Dia das Progenitoras. É um passa-repassa tão grande que virou uma orgia ideológica. Copa é feriado, copa é parar de ingerir antes da hora o veneno trabalhista, usar verde e amarelo e gritar o nome de um país ameaçado durante os dias anteriores.

Copa é modismo, quer apostar? Veja as mulheres, meu bom amigo observador. Elas ficam olhando as vestimentas e acessórios de suas colegas de espécie apenas para criticar. A fraseologia “Que brega” parece chuchu na cerca. Mas tudo muda na copa. A Fulana antes “não brega” coloca sua cartola verde e amarela, de um tamanho assustador, pinta cada unha de uma cor, parece a própria bandeira do país. Contraditório, não?

A copa também é o maior evento do mundo à cerca do trânsito. Caixas motorizadas brigam na rua por um espaço, por alguns metros à frente, como se fosse a única coisa a se fazer. A cidade fica ínvia. Ficar parado, no nada, no meio de muitos desconhecidos não parece ser um problema, não na copa. Durante os dias ditos normais, ficar parado é uma lástima, um problema governamental. Na copa não, principalmente se o motorista tem uma vuvuzela junto à sua espera.

Vuvuzela, outro exemplo de modismo. Antes era corneta de pobre, lembro bem, agora na copa é vuvuzela. Fica mais moderno, digo, “chic”, não é mesmo? Queria que a copa fosse lá para as bandas da Escócia. Não acho que teria o problema de ser acordado, em um domingo de manhã, por uma Gaita-de-Fole. Bem, isso chama minha atenção para a copa em solo tupiniquim. Acordado por pandeiros, que tortura! Cadê a Associação dos Direitos Humanos?

Falando nisso, será que alguém gosta de fato do som da vuvuzela? Se fosse apenas no jogo, algo circadiano, dava para entender, afinal copa é carnaval. Mas não, as vuvuzelas fazem parte dos comentários pós-jogos e das madrugadas. A vuvuzela é parente do reco-reco, do rojão e dos berros, diga-se de passagem.

A copa também é o maior evento porque é a época do nacionalismo. Ninguém gosta de morar no Brasil, porque não existe saúde, segurança – roubo de figurinhas, que calamidade – e bom transporte. Na copa isso muda. O Brasil é o melhor, com direito a bandeira na janela e reunião na hora do jogo. Hoje li uma frase em um muro na qual achei muito interessante: “Sociedade ipocrita, só lembra do Brasil na copa”. Erros ortográficos a parte, está correto. Está certo que o futebol é uma aula de física, de intelecto técnico, um calmante para as tristezas com teor botequeiro, mas na copa isso muda, e essa frase aponta isso.

Agora tente, companheiro de texto, falar para alguém que não assistirá o chuta canela. Que blasfêmia! Não assistir a copa é não ser humano, não ser brasileiro. É motivo até de discórdia, se bobear. O Brasil é um dos dois únicos países que param na copa. Feriado, oba!

Copa também é o maior evento do mundo porque é motivo de notícia, a única notícia. Até os artistas e personagens globais perdem seus lugares nas belas – essa foi boa – matérias jornalísticas brasileiras para a copa. Quem quer saber quem chutou as nádegas do parceiro se é possível ler uma matéria sobre o jogo que acabara de passar? É só usar a cuca, parceiro.

Mas não digo que você não deve assistir esse evento Pinóquio, não mesmo. Faça-o para ser o bom cidadão condicionado socialmente, o nacionalista, o esportista, o divertido, o esperto. Busque acabar com sua gastrite psicológica em fronte a TV, com pipoca, cerveja e calmantes. Aproveite o feriadão, afinal, você é livre, faz tudo por livre e espontânea pressão. Saúde ao maior evento do mundo!

Por Henrique Guedes

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