Todos com suas xícaras de café para um debate ateu? Aliás, um debate assim é algo muito raro em nossa sociedade.  Ser ateu em uma sociedade religiosa é algo realmente difícil, que não fornece sinais de mudança. Vivemos em um país que algum dia se denominou laico…mas não é bem assim na prática.

Os ateus dependem de espaços reservados para uma conversa saudável, sem preconceitos. Esse blog é um deles. Pesquisas apontam que cerca de 80% da população brasileira é atéia. É um número realmente assustador, e francamente, duvidoso. Raramente encontramos pessoas com educação suficiente para manter uma conversar sobre o ateísmo. O ateísmo não é formulado em nenhum livro, nenhuma doutrina, ou  ritual satânico (como muitos acreditam). Aliás, isso me faz lembrar de um caso pessoal: Certa vez fui na casa de um ex-sogro conhecê-lo. Como uma boa tradicional família brasileira a religião era o tapete da entrada principal com a frase “Seja Bem-Vindo”. Conversa vai, conversa vem, a seguinte indagação fora dirigida à minha pessoa: “Você pratica todos os rituais ateístas, até mesmo os satânicos?”. Expliquei calmamente – e assustado – o que é o ateísmo, e que não tem ligação nenhuma com o diabo ou quaisquer tipo de ritual. Até hoje acho isso interessante.

Casos pessoais a parte, voltemos para o debate “ateu”. Aliás, outra coisa sem sentido que engloba a questão  é a classificação “ATEU”, que etimologicamente siginifica “Não Deus”. Não acho que devemos negar algo que não existe ou que não acreditamos existir, mas tudo bem. Parece até classificação católica, para “sujar” a teoria. A Igreja Católica sempre bombardeou as teorias que podem confrontá-la. Foi assim com Darwin, desta vez colocando o gênio como um macaco evoluído, coisa que Darwin nunca falou.  Se existe o medo do confronto, existe por conseqüência uma mentira base. O evolucionismo (é importante ressaltar que sem todo ateu acredita na teoria Darwiana) apresenta provas teóricas, que assim como em todas as outras teorias apresenta algumas lacunas. A única prova que temos do criacionismo é a “bíblia”. O confronto é desleal, uma vez o criacionismo sendo tão vago. E outra: os crentes atentos ao ponto falho, buscam conquistar o mundo; Raramente veremos um budista na Praça da Sé gritando suas palavras proféticas, ou o  Deus Thor  julgando a humanidade em uma espécie de Auschwitz.

Como dizia, é muito difícil ser ateu no nosso país. Acho que no mundo. A crença em Deus é algo cultural, logo é difícil abrir mão da cultura ou aceitar outras. Não falo que existe preconceito apenas por parte dos religiosos, pelo contrário, os ateus também têm sua parcela de preconceito. A diferença é que nós ateus aceitamos conversar. Teóricos como Le Bon, Trotter, Theodor Adorno, Pichon, McDougall e até mesmo Freud estudaram o comportamento grupal, e em determinada parte de suas teorias, o papel religioso.  Vivemos em grupos, diversos grupos. O grupo mais comum é o religioso. Segundo os teóricos o grupo só existe com a presença de um líder – há a ilusão de que há uma cabeça maior no grupo, no âmbito religioso, Cristo é o comandante. Ele ama a todos os indíviduos do grupo com um amor igual; Sem essa ilusão o grupo de desfaz. O funcionamento da igreja é semelhante ao exército. Aponto isso para ressaltar um ponto interessante na teoria: uma vez em grupo permanente e organizado, a renúncia para com idéias e membros de outros grupos aumenta, gerando assim a não verbalização de todos os grupos sociais, no caso os “ateus” e os religiosos. Estando em um determinado grupo, o indivíduo fica livre para dirigir sua hostilidade, seu ódio para os demais grupos.

Nós ateus não temos templos para reuniões, apenas blogs e poucas  comunidades espalhadas pelo país. Dificilmente encontramos pessoas do mesmo “grupo social” que estamos inseridos para uma simples conversa. A TV é dominada pelo grupo religioso, assim como as instituições de ensino, locais públicos, rádios e calçadas aos domingos. E quando falo de ateus não faço referência aos “ateus picaretas”, estes que sujam o ateísmo com imagens satânicas e rituais, e sim sobre os que um dia pararam para pensar na sua prórpia existência. Não é preciso acreditar em algo para seguir, e se for, acredite em algo que você possa ver ou sentir. Sartre apontou em sua teoria existencialista que o ser é livre para fazer suas escolhas, e na bíblia está escrito (em algum lugar) que  o Livre-Arbítrio (não exatamente nestas palavras) existe e é de Deus. Um ateu e o livro sagrado, ambos com a mesma idéia, porém em lados diferentes. Se o Livre-Arbítrio existe, por que não posso escolher queimar no inferno sem passar por rituais verbais da religião visando uma conversão ideológica? Ou até mesmo conseguir ser humano (maquiavélico ou não) e interagir com minha espécie sem nenhum paradigma? A verdade é que somos ateus em potencial. Todos nós. Nascemos assim.

Aqui fora aberto mais um espaço para debates ateístas. Seja bem-vindo, sendo você ateu ou não.

Por Henrique Guedes

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