Chaplin, em “O Grande Ditador”.
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Falar de Deus realmente é difícil, e não digo isso pensando somente do lado ateísta, este que tenho grande apreço, mas também do lado dos religiosos, os bons e velhos amigos criacionistas. Quando falo que é difícil penso no conflito que a denominação “Deus” gera na sociedade – se você fala que Deus existe, é criticado e rotulado de louco. Se falar que não existe, é criticado e rotulado de louco, ou há alguns anos atrás, queimado vivo, enforcado em praça pública ou apedrejado. Independente da teoria, você será criticado de alguma forma.

O que podemos observar de interressante é que, tanto os ateus quanto os cristãos, tocam a mesma tecla durante toda a história dos debates sobre o assunto. Os cristãos, que por teoria própria serão aqui rotulados de religiosos durante todo o texto, adoram explorar a velha e famosa frase: “É preciso ter fé”, que há anos deixa ateus sensatos indignados com tamanho dogmatismo. Essa frase serve de resposta para todas as perguntas atéias que alguém pode gerar, assim como as mais diversas perguntas filosóficas, existenciais. Trata-se de uma resposta-fuga, ou seja, aquele tipo de resposta que você dá para explicar algo que você acha estar certo, porque acha acreditar.

Agora pensando no lado ateu, temos a famosa indagação: “Se existe Deus, por que o mundo está assim? E as crianças que morrem?”
Bem, assim como a resposta religiosa, a pergunta (ou as perguntas) em questão não passa de uma pergunta-fuga, aquela que você faz para tentar se livrar de explicações mais racionais, e ao mesmo tempo deixar seu oponente religioso em uma situação de puro aperto racional. Trata-se sim de uma pergunta de alto intelecto, o problema é que já está manjada, antiquada.

É certo que Deus não existe. Não passa de uma criação humana de dominação. Diria que estamos falando da criação de maior sucesso da história da humanidade (depois vem o sal, que transforma tudo em comida e o microondas). Agora, se Deus existe ou não, isso não justifica as condições precárias do mundo. O “Tenha Fé” dos religiosos não passa de uma fraqueza humana. A humanidade tem a necessidade de ser conduzida, ser inferior, mesmo sendo um pensamento ambíguo. As questões existenciais são torturantes, logo é justificável o medo da humanidade de confrontar as diversas indagações do mundo. Aqueles que debatem a não-existência de Deus apenas são guardiões de uma questão sociocultural, algo que fora passado durante todas as gerações, e que de certa forma tem um valor.

O lado religioso é fraco, tem uma tendência natural a cair no penhasco mental, mas isso é conseqüência de toda uma história humanizada. Porém o lado ateu também tem seus pontos fracos, começando pela rotulação: etimologicamente falando ATEU significa A= Não/Teu= Deus, ou seja, NÃO DEUS. O “não” é uma negação, então como podemos negar algo que não acreditamos existir? Parece até uma pegadinha católica (tenho minhas dúvidas). E quando perguntamos “Se Deus existe, por que o mundo está assim? E as crianças que morrem?” ajudamos o debate a tornar-se religioso, sim, pois de certa forma cogita-se a possibilidade de Deus existir. É claro que a pergunta é feita de forma metafórica, assim como discutimos a batalha do Wolverine contra o Magneto, acontece que vivemos em um país onde a interpretação é totalmente falha, o que gera debates enfadonhos.

Pegando a pergunta ateísta, faço uma colocação: é provável que com a existência de Deus a situação estaria pior. Usar as informações bíblicas de um Deus amoroso como um leão faminto, apenas para criar um argumento de pura ironia, não é algo muito sensato. Já usei esse argumento diversas vezes, e pensando nisso faço uma segunda colocação: o bom do ateísmo é que ele só tem um ponto dogmático (a não existência de Deus), logo o resto é totalmente relativista, sem verdades absolutas, logo o resto é mutável. Então além de apelar para a ironia, use os fatos. Imagine que Deus exista. Esse Deus é o mesmo Deus que mata famílias inteiras, propaga a destruição de cidades, estupro de virgens, destruição de espécies animais, mata e gera doenças em pessoas que não seguem seus mandamentos, assim como castiga os pecadores com um enorme lago de fogo, tudo dependendo do estado da sua paciência e vontade. Você acha mesmo que crianças morrendo de fome e de doenças, adultos mortos em guerras sem lógica, ou a destruição do planeta pela mão do homem são importantes para ele? Claro que não. Segundo a estória bíblica ele fez coisas piores, a nossa situação pode ser vista como rascunho do paraíso para Deus.

É provável que com a existência de Deus tudo seria pior. Se uma criança africana faminta chorar questionando os critérios de Deus, não duvido que ela e sua família seriam mortas por questionar a vontade divida. A situação da população africana, ou até mesmo a nordestina, seria vista como um teste de adoração a Deus, com direito a reprovação e castigo, que possivelmente seria a destruição. Deus é um ditador faminto de destruição e idolatria. Logo não precisamos bater sempre na tecla da não existência de Deus, pois isso não é um problema, é uma maravilha. A confirmação da existência de Deus que seria sim um problema, para os ateus e para os religiosos.

Por Henrique Guedes

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