Quando pensamos no ateísmo estamos pensando em uma teoria alvo de críticas e falsas justificações – Ateus são normalmente denominados adoradores do “demônio”, são classificadas como pessoas ruins e, em outros casos, participantes de seitas religiosas antigas. Seguindo o mesmo conceito ateísta, outra linha teórica que recebe muitas críticas e justificativas falsas é o anarquismo – Os anarquistas, por vez, normalmente são denominados de vândalos, propagadores do caos. Em ambas as situações o preconceito é lamentável.

Antes de apresentar a idéia central do texto em questão, é necessário entender a teoria central de cada abordagem. É necessário que esteja claro que o ateísmo não faz referência à atos satânicos, assim como o anarquismo não faz referência à atos de vandalismo. O ateísmo visa uma análise mais profunda à cerca dos dogmas religiosos presentes na cultura universal, como a crença em deuses entre outros seres mitológicos. O anarquismo tem como base o funcionamento saudável da sociedade, acabando com o capitalismo que controla as relações humanas mais primitivas, ensinando a ajuda mútua entre as pessoas. Não existindo nenhuma das formas de governo atuais – destacando o capitalismo com a democracia ou autocracia – a sociedade seria controlada por todos os envolvidos, ou seja, pela população, sem uma figura de poder maior ou cargos políticos.

Mesmo falando de duas teorias distintas, com vínculo nada claro, é possível fazer uma análise à cerca do movimento anárquico com a influência teórica ateísta. Os anarquistas partidários do ateísmo postulam que a crença em deuses, desde a antigüidade, acabou com a visão crítica do homem, colocando o controle religioso e político como carrascos de cada indivíduo, acarretando o término do orgulho de seus próprios méritos, sua iniciativa de organização coletiva e, o que faria Sartre surtar, o não entendimento de que cada indivíduo é responsável por sua existência, colhendo experiências para a formação de sua essência humana.

Pensando de tal forma e levando em consideração o paradigma comportamental de cada indivíduo, imaginando os possíveis estímulos neutros, é imaginável a relação teórica entre a crença em Deus e o controle político: na sociedade os governantes têm o mesmo papel que os diversos deuses, pois tanto um como o outro são responsáveis pelo desenvolvimento da humanidade, são responsáveis pela saúde e futuro de cada indivíduo. Destacando a tendência humana para a procura por respostas rápidas, a aceitação de um governo semelhante ao sistema religioso é inevitável.

Quando pensamos no ateísmo na sociedade anarquista, pensamos na quebra do vínculo que fora formado entre a religião e as formas de governo. Há quem duvide ser possível ser anarquista e ateu ao mesmo tempo, mas essa é uma relação que pode ser vista como algo fundamental. O anarquismo tem como base a boa relação entre os indivíduos, sem preconceitos ou dogmas. Na sociedade atual percebe-se um preconceito considerável para com os ateus, o que não seria cabível em uma sociedade anarquista. Sem uma religião dominante a aceitação do outro torna-se mais fácil, assim como o fim da necessidade de proteção superior – seja por Deus ou por um Rei – possibilitando uma evolução social menos problemática e humana.

É necessário aceitar o outro como um auxiliar para a própria sobrevivência, sem rótulos ou quaisquer classificação prematura. Mesmo que a teoria de Maquiavel seja louvável e observável em nossa sociedade, não podemos deixar de observar a importância do quadro social desde os primórdios. Sem a crença em um Deus é possível perceber que sua sobrevivência é fruto da ajuda recebida pelo outro, assim como a sobrevivência do outro é fruto da sua ajuda. Não dependemos de um ditador para vivermos. Podemos cultivar a fruta proibida, ou até mesmo oferecer para o outro sem medo de punições ridículas e sem lógica, assim como podemos ensinar as nossas crianças que ser um adulto não é só seguir leis, aceitar determinações políticas com intuito capitalista ou pagar impostos. Deveríamos ser desobrigados de nossas funções, e apenas viver de forma humana.

Por Henrique Guedes

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