Sou livre. Grito no escuro, corro na chuva, faço bola de sabão.
Sou livre para atravessar fronteiras, plantar bananeira e na Capela de Melão, viver meus sonhos diversos, como conquistar o universo, ou o mundo de Platão.
Sou livre para gritar meus versos, pintar minhas idéias ou até mesmo chorar meus pesadelos, na hora da solidão.
Sou livre para ser criança, adulto ou ancião. Posso escolher entre ser o mocinho ou o ladrão, vivendo no inferno humano ou no paraíso da imaginação.
Mas quem quero enganar afinal? Sou livre como um passarinho na gaiola, que canta querendo atenção, mas só recebe algumas frutas estragadas, como prêmio de consolação.
A fronteira que imaginei atravessar é distante, onde as curtas asas de passarinho não conseguem chegar, então canto esperando a porta da gaiola abrir, como um “Abre-te Sésamo” da estória do Ali Babá.
Mas não adianta reclamar, pois passarinho preso na gaiola sou, então canto minha liberdade enjaulada, imaginando como seria sentir o ar nas minhas asas, ou ser o astro principal de um grande show.
As bolas de sabão formadas, flutuam com liberdade, apontando o cadeado na minha porta, caçoando da minha cara. Não sabem elas que não são eternas, e que a liberdade que desfrutam acabará, assim como suas vidas patéticas.
Se estou preso sou perigoso, não vejo outro motivo. Só imagino o poder que tem meu canto, nessa terra de gigantes enfurecidos.
Enquanto imagino os mistérios do mundo, só canto lamentação, aqui na gaiola da liberdade, acho que acabei escolhendo ser o ladrão.

Por Henrique Guedes

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