Não temos nada que queremos, apenas temos os sonhos que são fantasiados no meio da nossa tragédia existencial. Reduzimos nossas vidas na lamentação, mas não na lamentação humana, e sim social. Não vivemos como humanos, e sim como máquinas, o que torna nosso suor símbolo de humanos tristes que tentam sair de seus casulos metálicos e parafusados, apenas para viver humanamente.

Não temos alimentos. Não temos moradia. Trocamos as correntes e chicotes da história por contratos e crachás com nossos nomes. Não vivemos em uma sociedade evoluída, vivemos em uma sociedade deprimente. Passamos nossas vidas fazendo algo que não gostamos, que não queremos, que nos mata, e quando indagados usamos a desculpa mais velha de todas: o futuro. O futuro é o amanhã, e nada mudará.

Vivemos mesmo em uma sociedade deprimente. O homem pré-histórico se alimentava da natureza quando precisava, com o que visava. Hoje nos alimentamos com o que o nosso dinheiro – este “conseguido” com nosso trabalho – consegue comprar. Pagamos para comer, para morar, e para nos vestirmos. Se não comemos morremos. Se não moramos somos vagabundos. Se não nos vestimos somos presos. Estamos condenados a esse fracasso social.

Lutamos pela sobrevivência básica, trabalhamos por obrigação. E ressalto que não tenho o trabalho natural como algo repulsivo, apenas tenho asco da condição precária de sobrevivência que muitos chamam de sociedade, de nação. Precisamos do outro para viver, e todos juntos garantimos a sobrevivência do rei. Um por todos, todos por um. O rei nunca precisará suar.

Acho mais digno e evoluído morar em uma caverna escolhida a esmo, com vestimentas comuns e relações naturais. Acho mais digno e evoluído suar no nosso alimento em vez de suar sangue. Plantar, colher e posteriormente comer, assim como deveria funcionar o ciclo da vida. Também somos animais, e não morremos cruelmente nas mãos de uma espécie que se considera superior, morremos pelas mãos da nossa própria espécie, e se bobear, pelas nossas próprias mãos.

Se chamam a revolta à cerca de tudo isso de caos (o que os leigos e hipócritas do capitalismo denominam de anarquia) não sei mais o que é caos. Mesmo sendo seres empiristas, ao nascermos já temos uma profissão no registro da vida. Somos catalogados por etnia, religião, poder financeiro, e currículo vitae. Conseguimos fracassar com nossa família e amigos por falta de dinheiro. Não temos mais relógio, temos horário de almoço ou atraso. Isso é caos.

Estamos acabados. Não temos mais o direito de viver ou de pensar. Acordamos para cumprimentar o sol e dormimos para conseguirmos fazê-lo todos os dias. Não temos mais a idéia de liberdade, hoje os sonhos são as folgas. Nosso calendário é apenas o fim do mês. Ordem, um pouco mais de ordem, e nada de progresso. E o que nos resta fazer? Trabalhar, talvez.

Por Henrique Guedes

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