Há tempos deus é visto como o salvador, figura de amor e muita bondade. Como qualquer conto de fadas, a estória bíblica também pode ter várias interpretações, e o ditador divino, várias máscaras. Convido você leitor para mais uma análise da figura de deus: ele ganha respeito causando medo e sofrimento. Ele é quase um vilão dos filmes de “bang-bang”.

Os vilões dos filmes de “bang-bang” sempre amedrontam uma pequena vila, e têm vários seguidores – no caso de deus, doze – que espalham a fama de mau do patrão. A população com medo aceita pagar tributos ao vilão, alimentando assim sua fama de mau. Se alguém entra no caminho, morre. Até aqui o diabo faz o mesmo papel do xerife mexicano, que tem um pacto com esse vilão (porém o mesmo xerife fica com quase toda a culpa no final). O vilão não respeita ninguém, e para ter suas vontades realizadas faz de tudo.

Quando o vilão fica cansado de abusar da mesma vila, acha melhor dominar outros povos, e isso exige mais mortes. É neste jogo de conquistas que um dos seguidores do vilão fica com pena das pessoas sem nenhuma defesa e decide trair seu patrão: ele morre e fica com fama de traidor entre os membros da gangue. A conquista continua, e algumas casas são queimadas a mando do vilão, só para impor respeito. Um pai de família, cheio de marcas da bota do vilão, é obrigado a assistir a morte de sua família, sem reclamar. Ele deve provar lealdade para com o carrasco. A lei do bandido é clara: quem seguir e obedecer vive, quem lutar será queimado para servir de exemplo.

Não posso deixar de pensar no saloon, pois “bang-bang” sem saloon não é “bang-bang”. É lá que o vilão compra toda a bebida que seus seguidores consomem; é tanta bebida que até parece que o vilão fabrica com pura mágica. Também é lá que o vilão se diverte. Ele é amigo das prostitutas, e faz alguns índios dançarem atirando em seus pés. Aliás, se você é um religioso, o índio é você.

O vilão abusa de uma virgem e tem um filho com ela. Esse filho acaba morrendo em nome da população, ou seja, acaba morrendo de besta que é, pois morreu sem ter feito nada antes. O terror continua. Às vezes surge um herói de momento, este que questiona o reino do vilão e é condenado à forca. O vilão domina tudo e todos.

Amigo leitor, a diferença entre um filme de “bang-bang” e a estória bíblica é que deus nunca é derrotado. Seu império insano é considerado eterno, e os índios continuam dançando ao som de disparos e cheiro de pólvora queimada. É claro que a metáfora não abrange toda a estória, mas é possível pensar nas semelhanças. Se você é um religioso, sinta-se livre para escolher o seu papel na estória: você pode ser o índio, um membro da pequena vila, ou um herói sem medo de se enforcar na corda da liberdade.

Por Henrique Guedes

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