É comum encontramos críticas de religiosos à cerca da defesa do ateísmo, assim como comentários pejorativos para com os defensores. A principal arma de ataque dos religiosos é o argumento que se não acreditamos, não precisamos refutar a idéia com tanto vigor. Bem, nas próximas linhas deste texto, amigo leitor, não será a existência de deus que será refutada, e sim esse argumento chulo.

Teoricamente, vivemos em um país laico, ou seja, um país que não pertence ao clero, que não fez votos religiosos, totalmente secular. Acontece que na prática isso não é aplicado, o que acaba gerando preconceito para com os ateístas, eliciando comportamentos evitativos e confrontos ideológicos. Muitos religiosos criticam a quantidade de blogs voltados para a defesa ateísta, mas não percebem que isso não passa de uma conseqüência religiosa.

Já fui indagado por amigos, familiares, e leitores do blog (como a Carina, no texto O Poder da Oração) sobre o motivo de ser defensor do ateísmo ao ponto de dedicar um blog para o assunto. É simples. Quando era recém-nascido fui batizado na igreja católica, sem minha permissão – Não sabia nem meu nome, imagine o significado de um ritual religioso. Mais tarde, fui obrigado a freqüentar os ensinamentos bíblicos, o que recebe a denominação “catequese”. Expulso nas duas vezes que fui obrigado a participar, fui taxado como problemático pela minha mãe. Oras, em que mundo uma criança pode ser taxada de problemática por não aceitar a teologia? Isso não deveria acontecer no nosso laicismo.

Pulando alguns anos, todos os domingos um grupo de evangélicos tocam meu interfone. Na entrada do trabalho, a primeira coisa que vejo é uma oração para abençoar o dia. Ainda no trabalho, vários companheiros da dura rotina trabalhista não aceitam sentar-se na mesma mesa de bar, para apreciar uma cerveja no fim da tarde de uma sexta-feira, porque sou ateísta. E não é só no trabalho: familiares e “amigos” evitam o convívio, pelo mesmo motivo.

Em casa, ao ligar a TV, encontro vários programas religiosos. Recebo mensagens religiosas diariamente no Orkut. Sou atacado no Twitter. Recebo sermão da minha mãe por telefone. Nos meus certificados extracurriculares, posso ler “Agradeço a Deus”, mesmo sem agradecer. Temos feriados religiosos, mesmo quando não são – A Páscoa é uma comemoração pagã do Equinócio, comemoração esta adaptada para o cristianismo. O Natal também não é uma comemoração cristã por natureza. Estudei em um colégio que tinha uma matéria obrigatória baseada no catolicismo. Em certos períodos, ao ligar a TV, só encontramos filmes religiosos. Ouço falar em deus todos os dias, mas se tenho um blog sobre o ateísmo, sou fanático? Oras bolas!

Sou obrigado a viver com a religião, sou obrigado a escutar sobre deus (com “d” minúsculo, pois para que algo tenha nome próprio, esse algo deve existir primeiro), perdi muita coisa em conseqüência do fanatismo religioso, e creio que não sou o único. E não, meu ateísmo não é fruto de alguma frustração; sei bem que a religião é uma bengala psicológica cultural, e que ao negá-la, terei conseqüências. O que não aceito é ser forçado a participar desse lenga-lenga divino. Luto com bravura e com vigor contra a religião assim como uma lebre luta contra um leopardo das neves: apenas quero viver sem ameaças, livre.

Não sou fanático pelo ateísmo. Não passo minha semana refutando a existência de deus. Pelo ônus da prova, quem acredita é quem deve provar. Afirmo a “não existência”, mas tenho evidências científicas e lógicas que deus não existe. Os cristãos apenas têm a fé. O que faço em nome do ateísmo, faço em meu próprio nome. Quero romper o cinto religioso que aperta nossa sociedade. Quero acabar com o preconceito, sim, preconceito: nós, ateístas, sofremos preconceito da sociedade, coisa que não deveria acontecer. Hoje existem várias leis contra o racismo, pois há luta dos representantes. Há leis quase aprovadas contra a homofobia, pois também há luta dos representantes. O ateísmo está seguindo os mesmos passos. Ateístas são atacados por radicais religiosos, como protesto, mas a mídia “laica” não repassa a informação.

Ninguém fala que um homossexual é fanático porque defende sua liberdade, ou que um afro-descedente leva o racismo muito a sério. Agora se é um ateísta, bem, aí a história muda. Assim como o racismo e a homofobia, a “ateufobia” deve acabar. Como fazer isso? Espalhando a idéia, para começar. E quando falo em “espalhar a idéia”, não estou querendo ser pior que os evangélicos – Não chamo ninguém aos domingos, não espalho panfletos nas ruas, nada disso. Meu material de divulgação fica aqui, para quem quiser, assim como os principais sites ateístas. Se você é cristão (que está lendo este texto), deve concordar: você está aqui porque procurou algo sobre o ateísmo, ou se “caiu” aqui, chegou a esse ponto do texto por vontade própria. Ninguém obrigou. Nenhum ateísta te ameaçou. Sendo assim, não aceito ser taxado de fanático ateísta.

Minha vida não é baseada em deus. Não sigo regras pensando em um paraíso eterno, em uma recompensa no fim da vida. Não preciso de apoio religioso para ser gentil com as outras pessoas. E diferente da visão do Datena, nunca matei nem roubei. Ou seja, não preciso de deus, apenas quero viver sem ele, sem as igrejas, e sem as conseqüências de escolhas racionais.

Por Henrique Guedes.

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