Cena clássica: o culto tem seu início anunciado, o pastor começa a fazer mais barulho que uma vuvuzela, e em instantes, todos dançam. Não é uma dança comum, meus amigos, é o mexe remexe do espírito santo, o coreógrafo micareteiro de deus. Não é pecado balançar o esqueleto em nome de deus, só fora do Clube Evangélico, claro.

É não é uma dança comum, tampouco apreciável como os passos do saudoso Gene Kelly, é uma espécie de coreografia de boneco de posto de gasolina, o denominado “Boneco Biruta”…ops. Sem ofensas. É interessante observar a dança. Todos pulam, balançam, remexem. As mulheres ficam tão descabeladas que deixam a Regan com inveja.

A questão é grupal. A dança não é uma representação do espírito santo, amigo crente. Como disse MacDougall,  em um grupo o indivíduo perde sua distintividade, é influenciado. Parece fazer coisas pela necessidade de estar em harmonia com o grupo, e se não for pela harmonia, “Ihnen zu Lieben”.

O poder é invencível. É a sensação de poder, falta de medo em fazer algo, coisa que o indivíduo não tem quando está sozinho. Sábio raciocínio de Le Bon. Aliás, Gustave Le Bon explica muito bem a dança dos crentes serelepes. Quando o indivíduo está em grupo, ele deixa de ser racional, deixa de ser individual, tudo de acordo com o grupo.

Tenho uma palavra para a dança estranha dos crentes: empolgação. Mas a empolgação não é algo observável apenas em uma igreja. Mudemos de água benta para vinho barato: pensemos em um show do velho e bom Rock and Roll. Tenho até um exemplo em mente: Angus Young, um dos melhores guitarristas do mundo, de uma das melhores bandas, ou seja, ACDC. Ele pega uma das suas Gibson SG  e eureca! É majestoso, é sensacional. Com sua coreografia baseada no seu ídolo Chuck Berry, ele anima multidões. Aliás, animar multidões é algo que ele sabe fazer. O público perde a vergonha; pulam, gritam, batem. É pura empolgação.

Agora pensemos juntos, amigo leitor: Angus Young é especialista em animar multidões. Um pastor também. A empolgação de um evangélico é a mesma que a do roqueiro em um show. Só existe uma diferença: a empolgação do evangélico é divina, já a do roqueiro, satânica. Ops! Espere um minuto. Que papo é esse? É pura empolgação amigos, e essa empolgação não tem influência nenhuma de algo sobrenatural, até porque isso é muito improvável. Essa idéia cristã é…inaceitável.

Tocar uma guitarra imaginária ao som do Led Zeppelin é equivalente a dar pulinhos em nome de deus. Se a sensação é boa, será feito. Só não podemos dar créditos ao sobrenatural. A empolgação é algo empírico. E se você amigo crente acha que os passos do Angus são algo satânico, observe a dança dos batedores de tambor e compare com a sua dança. Não vejo diferença, nem na dança nem na empolgação. Não há mesmo uma diferença. Quando o assunto é empolgação, o que muda é apenas o estímulo e a resposta. E então, vamos dançar?

 

Por Henrique Guedes

Anúncios