Noite solitária e fria de sábado. Não há muito que se fazer em um final de semana caseiro. Tudo se resume nas fantásticas letras do Rauzito, inúmeras garrafas de café, alguns livros, alguns filmes, nenhuma companhia. A rotina cansa, meus caros. Dias assim me fazem pensar muito mais que o comum. Isso é bom.

A sexta-feira acaba, depois de uma torturante semana de rotinas. O tempo é generoso com a semana, ela demora para acabar, poderia ser assim com os finais de semana também. Às vezes acho que a sexta-feira é viciada por trabalho e o domingo é apaixonado pela segunda. Final de semana, tenha calma. Shakespeare já disse:  “Devagar! Quem mais corre, mais tropeça!”.

Não tenho nada para escrever, mas as letras do teclado parecem tão bonitas. É a única companhia que tenho, afinal. Ouço, da casa da vizinha, os grandes sucessos do José Rico e Milionário, assim como ouço as crianças correndo no apartamento ao lado. Parecem que eles não sabem o que é tédio.

Aí levanto para jogar água na cara, para tentar acordar do transe tedioso. Vejo o espelho e nele vejo quem sou. Que sujeito feio. Fica pior quando percebo que serei assim até a conclusão da minha morte. Feio é sempre feio. Ser feio em “vida” deve ser uma mutação retardada. Mas tudo bem, todos serão feios um dia. Apenas estou adiantado. A loura bonita aqui do lado será feia, a moça do mercado, a moça que pega o ônibus no mesmo horário que eu também, a dona do Apto.: 13…bem, essa deve entender o que digo. Não sei se é deveras ruim ser feio em uma sociedade onde a beleza precisa de salão de beleza e roupas da moda.

Sempre que o tédio bate, lembro da plausível animação “Mary and Max”, do Adam Elliot. Gosto do Max, às vezes acho que sou ele. Tenho a feiúra, a timidez, a sensação de fracasso, a solidão, teclas e maravilhosas pessoas que moram distantes. Mas o Max morre sem mudanças, sem conhecer a Mary, sua grande e desconhecida amiga. Não gosto de fazer comparações com essa parte. Se bem que nunca irei conhecer nenhuma delas também.

O tédio pode servir para alguma coisa. Azar o de vocês – textos sem sentido surgem para calar a solidão, digo, o tédio. Assim como o filme (Mary and Max), também lembro de um trecho do filme “Watchmen”, que o Rorschach diz: “Um homem vai ao médico, dizendo estar deprimido. A vida parece dura e cruel. Ele diz se sentir sozinho nesse mundo ameaçador. O médico responde: ‘- O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci está na cidade. Vá assisti-lo, isso deve alegrá-lo’. O homem explode em lágrimas. ‘- Mas doutor’, ele disse, ‘ – Eu sou Pagliacci!’.”. Uma provável comédia. Se o grande Pagliacci sente isso, por que eu não irei sentir? Obrigado, Rorschach!

O grande palhaço Pagliacci está triste, o que é muito comum. A alegria é a tristeza com um nariz de palhaço. Falo em alegria e lembro-me da felicidade. Aliás, o histórico da humanidade aponta uma busca neurótica da felicidade. Já procuram no bolso? Sempre faço isso com as minhas chaves. Às vezes acho que as pessoas não deveriam perguntar “tudo bem?” e sim “como vai sua tristeza?”. Faz sentido, oras bolas! A felicidade é o intervalo entre uma reclamação e outra. Quando não estamos no colo da felicidade, o que é algo momentâneo, estamos tristes. É a natureza humana. A ansiedade e a angústia também, o que muda são as contingências. Mas isso é papo para outro lero enfadonho. Agora irei procurar alguma poesia, pois todos sabem que as poesias não são dos poetas e sim de quem precisa delas. Até mais.

Por Henrique Guedes

 

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