Hoje tirei o dia de folga – tem cheiro de advertência – pois não agüentei todo o peso da escravidão moderna. Às vezes penso: só eu acho isso desumano? Digo, a sociedade precisa mesmo das nossas vidas, do nosso sono, do nosso bem-estar, da nossa dignidade, da nossa liberdade existencial e de nosso sacrifício social para se desenvolver? Tudo isso é realmente necessário?

Trabalhamos cinco meses, em média, só para sustentar a corrupção política no nosso país. Os outros sete meses, em média, trabalhamos para sustentar os vícios capitalistas dos empresários. Em troca recebemos dinheiro para garantir alimentos, moradia e vestimentas. Ou seja, trabalhamos para sobreviver e sobrevivemos para poder trabalhar. Sem falar que ainda somos humilhados, como se os nossos empregos fossem uma espécie de “bondade empresarial”. Estamos falando de uma troca e não de um favor.

Possivelmente serei advertido por faltar hoje, mas meu organismo falou mais alto. É tão ridículo que chega ser engraçado. Se estou doente, preciso de uma declaração médica; aliás, o atestado médico ganhou um novo valor: passou a ser uma declaração de liberdade existencial. Se tenho algum problema pessoal, não posso resolver sem a autorização de pessoas que não têm nenhuma ligação válida com a minha vida particular. Se tenho sono ou dor, tenho que ser forte. E o mais intrigante: tenho que achar tudo isso um sistema válido de sobrevivência, pois as escolas e nossos pais não ensinam que somos livres, pelo contrário, ambos ressaltam que devemos, cada vez mais, ser o melhor escravo.

Onde iremos parar com tudo isso? Uma pessoa começa a trabalhar aos 16 anos e só poderá parar aos 65 anos, isso se todos os requisitos forem cumpridos. Como ainda ninguém fez nada à cerca disso? O que houve com a nossa coragem? Por que não nos juntamos e acabamos com isso? Afinal, nós somos o combustível de nossas lamentações. Temos medo? Precisamos de um beliscão?

Uma sociedade que fora formada pela alienação trabalhista não deveria se desenvolver, ao contrário, deveria ser destruída. A revolução é a principal arma dos explorados. As leis governamentais visam exatamente isso: às vezes, as necessidades humanas falam mais alto, o que pode ser uma ameaça para os governantes. Estamos presos na sociedade decadente. O que nos resta fazer é deixar claro apenas uma coisa: nós, escravos, estamos presos com os governantes e empresários ou são eles que estão presos aqui conosco?

Precisamos fazer algo à respeito. A suposta “modernidade” está tentando responder a velha questão filosófica “Qual o sentido da vida?”. Não! Não devemos permitir isso. O sentido da vida não é algo explícito, mas com certeza a resposta não é “Trabalhem, escravos, trabalhem!”. Precisamos de uma modelagem comportamental. Aceitamos sustentar os políticos e empresários, aceitamos as leis chulas, aceitamos a decadência de tudo que carrega a definição “público (a)”, aceitamos passar a vida inteira trabalhando, aceitamos pagar caro pelos produtos que ajudamos produzir, aceitamos acabar com o nosso país. Sim, sem dúvida, precisamos de uma modelagem comportamental.

Ouço, com freqüência, a perspectiva sem base que trabalhar exaustivamente é a garantia de uma “boa vida” para nossos filhos. Blefe! Nossos filhos irão trabalhar exaustivamente para garantir uma “boa vida” para os filhos deles. É um ciclo vicioso e vigiado. A sociedade decadente na qual vivemos é fruto da falta de coragem dos mais velhos, não devemos tê-los como exemplo.

Devemos aproveitar o desenvolvimento tecnológico para mudar a situação precária da sociedade; graças à tecnologia não precisamos pegar em armas para lutar. Conseguimos, com um simples informe, espalhar uma idéia para uma quantidade considerável de pessoas. O ponto chave é exatamente esse: juntar pessoas.

No final do filme “V de Vingança”, toda a população sai às ruas trajando o disfarce do “V”; no filme, um único mascarado fora classificado como “terrorista” e, conseqüentemente, fora perseguido pelo governante. No entanto, uma população inteira usando a mesma máscara, conseguiu provar que o medo de lutar é totalmente mutável. No meu ponto de vista, é a parte mais emocionante do filme em questão. Precisamos disso.

Há um documentário – e livro –  que acho fabuloso: “Da Servidão Moderna”. Trata-se de um documentário de 52 minutos, produzido de forma independente e é distribuído gratuitamente  em certos lugares alternativos da França  e na América Latina.

“(…) O Objetivo principal deste filme é de por em dia a condição do escravo moderno e de evidenciar as formas de mistificação que ocultam esta condição subserviente. Ele foi feito com o único objetivo de atacar de frente a organização dominante do mundo (…)” (BRIENT e FUENTES).

O vídeo e o texto (escrito na Jamaica, em outubro de 2007 e finalizado na Colômbia, em maio 2009) são isentos de direitos autorais, podem ser compartilhados e reproduzidos por qualquer um, em qualquer lugar e não devem, em hipótese alguma, ser comercializados. Não quero e nem devo tirar todo o mérito dos idealizadores da idéia. Sendo assim, deixarei o link do site Da Servidão moderna e um vídeo com 10 minutos do documentário. Para os interessados, há a possibilidade de fazer download do documentário inteiro no site, assim como ler o texto original.

Da Servidão Moderna:

Por Henrique Guedes

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