Liberdade. O que é isso, amigo leitor? Um mito? Uma comida? Um filme? Ninguém sabe, deveras, o que é. Mesmo assim, todos querem. A chamada liberdade seria sentir o vento fora da caverna platônica? Ou seria sentir a brisa da existência e seus benefícios? A liberdade é um mistério. Na pós-modernidade, por exemplo, é um atestado médico. Na natureza, é o cantar de um pássaro fora da gaiola.

A liberdade está no mesmo campo misterioso da felicidade e do tempo. Alguns humanos querem euforia em uma humanidade que ainda busca o segredo da felicidade constante. E estamos falando da mesma humanidade que transformou o tempo em curandeiro. Pelas barbas do Raul Seixas! Se o tempo não consegue nem fugir da maldição do relógio, como ele irá curar alguma coisa? Pobre liberdade. É dependente de uma humanidade careta.

O problema é que não temos a liberdade de usar o nosso tempo para saber o que é felicidade. Mas queremos isso. Mas temos medo, e medo é a única coisa que a humanidade quer que os humanos continuem nutrindo. Não somos mais macacos, agora somos pássaros. Sobrevivemos e cantamos em uma gaiola que nós mesmos construímos e mantemos. Nossa liberdade está de um lado engradado a outro.

Não estamos longe da felicidade, pois ela não é constante. Uma gargalhada na companhia de amigos em um show é felicidade, por exemplo. Felicidade são momentos, logo a euforia é uma grande mentira. Se não estamos em um momento feliz, estamos tristes, aí apelamos para a saudade. É um processo natural simples. Agora, quando pensamos em liberdade a coisa muda. Neste caso, a liberdade é muito parecida com o tempo. Vendemos ambos para a sociedade. Temos hora marcada para tudo e não temos liberdade para nada.

Pensemos no nosso grande carrasco: o trabalho. Existe uma hora para dormir para ser possível acordar na hora certa. Aí temos que calcular o tempo para não perder o horário do ônibus. Temos o horário de entrada, o horário do café e o horário do almoço. O horário de saída é o mais esperado, mas é preciso correr, pois o horário do ônibus é fanfarrão. Aliás, o horário do ônibus nunca é alterado no sentido do trabalho, só no sentido de casa. E isso é rotineiro. Espere um momento! Seria o tempo o carrasco obrigado da liberdade? Se for, antes de lutarmos por liberdade, teremos que agendar uma luta por tempo. Aí o tempo viraria um herói. Um Robin Hood temporal, que rouba existência da sociedade para dar para a liberdade.

Usarei a mesma metáfora que o Bertold Brecht usou em “Se os Tubarões Fossem Homens”, de forma “Santa Ifigênica”, claro: transformarei os humanos em peixes. Imagine um único peixe em um tedioso aquário. Ele nada de um lado para outro, do nada para lugar algum. Não há nada que esse peixe possa fazer para mudar sua condição. O que seria liberdade para ele? Imagino que seria o oceano. Mas, como chegar até o oceano? Como conseguir essa liberdade? Talvez, neste caso, esse peixe gostaria de ser um humano, pois os humanos conhecem a resposta. No entanto, esse peixe provavelmente seria um humano não tradicional, o que significa que ele não seria um humano medroso, ridículo e condicionado. Minha concepção é que a liberdade não quer papo com a humanidade. Mas, o que é liberdade?
Por Henrique Guedes

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